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As mulheres na política e em movimentos sociais

Ilustração

Ilustração: Bianca Duarte

“Eu sou Verônica Neuma das Neves Carvalho. Reafirmar que tenho sobrenome. Isso, para nós, mulheres negras, é de uma relevância muito grande. O que me levou a atuar em movimentos sociais? Indignação”, foram palavras da co-fundadora do Grupo de Valorização Negra do Cariri (GRUNEC), na conversa que tivemos para esta reportagem. Bióloga, filha de enfermeiros e descendente de um povo quilombola, Verônica Carvalho é uma das muitas mulheres que, apesar de serem mal representadas no poder, continuam fazendo política todos os dias. 

 

Aos 62 anos, Verônica afirma nunca ter se visto fora dos movimentos sociais. Os seus pais, que trabalharam com a saúde pública, ela os chama de “cuidadores de gente”. Nasceu social e fez-se política já muito cedo, a partir dos grupos de jovens da Igreja Católica. Em uma época anterior à existência do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), atuou junto a eles no Crato, na Fundação Estadual do Bem Estar do Menor. “Eu lembro de meu pai fazendo coleta de alimentação para levar para os presos. Por isso, indignação. Indignação por não aceitar a desigualdade que nos é amputada. Tá preso? Tá. Mas tem que comer”, declarou.

Apresentação de Dia das Mães Scrapbook Vintage Bege e Rosa Claro (2)_edited.jpg
 “Fome, falta d’água, nós convivemos muito com comunidades que não tinha água para beber, tomar banho. Por indignação frente a essa mazelas, a gente se aquilomba, se junta, para ter força para lutar.”   
-Verônica Carvalho

Em 2012, filiada ao Partido dos Trabalhadores (PT), Verônica concorreu ao cargo de vereador no município do Crato. Obteve 338 votos, mas não se elegeu. Sobre a campanha eleitoral, que foi a única em sua vida, ela afirma ter ganhado experiência e que se sente bem com o que defendeu. Sem o desejo de voltar a se candidatar, ela se coloca a serviço de projetar a juventude. “Eu acho que a gente fez um caminho e  deixamos muitos rastros, mas esses rastros precisam ser transformadores”.   

“Ainda é difícil, as pessoas se comovem com a morte de Marielle e eu lamento muito, mas quantas marieles não morrem todos os dias? Aqui, morreu Rayany, quem fala nela? Qual político fala em Rayany, quando a família dela ainda não pôde sequer enterrar seu corpo?”, exclamou Verônica ao citar o caso da cratense Rayane Alves Machado, de 24 anos. A jovem foi assassinada, a facadas,  pelo ex-namorado em Belém do São Francisco-PE, em 19 de março de 2016. Conforme relatos das testemunhas, o corpo de Rayany foi jogado em um rio e está desaparecido até hoje. 
 

Verônica Carvalho

Verônica Carvalho

Arquivo Pessoal

Terreiro das Pretas

Terreiro das Pretas

Reprodução: @terreirodaspretas

Terreiro das pretas

Terreiro das pretas

Reprodução: @terreirodaspretas

Cinemafrica ao luar

Cinemafrica ao luar

Projeto realizado no terreiro das preta em dia de lua cheia - Arquivo pessoal/ Verônica Carvalho

Declamações de poesias

Declamações de poesias

Evento que acontece acontece no terreiro das pretas - Arquivo Pessoal/Verônica Carvalho

Reprodução: Arquivo pessoal /Verônica Carvalho 

Para a ativista, ser mulher e negra ainda é um desafio na sociedade. “Eu percebo que os partidos, não só o PT, precisam avançar e muito no lançamento de mulheres, para ampliar essa representatividade política. 30% é pouco, tinha que ser 50% ou mais”, enfatizou Verônica que também disse estar convicta de que contribuiu, significativamente, para o debate de cor e gênero, dentro do partido. 

Apesar da conjuntura na qual se insere, Verônica Carvalho possui um olhar sonhador e permanece desejando um futuro melhor. “A gente vê a violência acontecendo nas escolas, os jovens perdendo os sonhos. Nós, mais velhos, precisamos alimentar, na juventude, a sua capacidade de sonhar. Envolver a juventude na perspectiva do bem-viver. É isso que eu faço enquanto ativista de movimento social e eu não quero perder a minha capacidade de sonhar”. 

Mulheres na política partidária

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Assim como Verônica, há muitas outras mulheres que lutam por seu espaço na política. Na história mais recente do Brasil, Marielle Franco, mulher, negra e vereadora assassinada, no Rio de Janeiro em 14 de março de 2018, se tornou uma referência na defesa de pautas sobre dos direitos da população LGBTQIA+ e das mulheres negras e faveladas. Outra referência é Benedita da Silva, mulher, negra, deputada federal,  ex-ministra do primeiro governo Lula, e que realizou uma importante conquista em 2020 ao pedir consulta no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para a garantia de maior representatividade nas eleições. 

Para a cientista política Monalisa Soares, a iniciativa de Benedita foi fundamental. “A decisão que vincula a candidatura de negros e negras que está vigente desde 2020 foi algo que foi decidido pelo TSE a partir de uma interpelação da deputada Benedita da Silva”, sublinha. A época foi aprovada a distribuição de recursos financeiros e tempo em rádio e tevê dividindo-se em 50% para mulheres brancas e 50% para negras, com um mínimo de 30% do Fundo Especial de  Financiamento de Campanhas (FEFC)  para candidaturas de negros.

Sobre as candidaturas femininas nas eleições de 2022, segundo Monalisa, o crescimento não foi representativo, e a problemática se torna ainda mais profunda quando se analisa as candidatas eleitas. “No caso das eleitas, a gente vê o fosso e o ato quando se trata de representação de mulheres no Brasil, onde tem-se muitas eleitoras e poucas eleitas'', pontua. Ela aponta como outro fator a baixa representatividade no legislativo. “Houve um crescimento sim na câmara federal, mas um crescimento pífio, antes eram 15% de mulheres, agora são 17,8%, um crescimento irrisório. Tem um movimento de desaceleração de candidaturas e eleição de mulheres”, ressalta. 

Monalisa explica que o impacto da sub-representação é ainda mais intenso em espaços de poder ocupados majoritariamente por homens. “Quando a gente trata desses perfis de mulheres, mulheres negras, trans e indígenas, aí é que existe sub-representação mesmo. O que é mais complexo para esses grupos de mulheres, por uma diversidade de elementos.  No congresso nacional, elas enfrentam não só o sexismo e o machismo que estão nas instituições políticas, mas também enfrentam o racismo, e a lgbtfobia”. 

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“A gente pode pensar a representação a partir de duas variáveis: uma variável mais cultural ou social essa que a gente chama tanto de machismo, a composição que organiza a vida social e define papéis sociais e a outra variável é institucional, os partidos políticos têm muita relevância, pois são os portões que definem quem pode ou não entrar na política nacional.

-Monalisa Soares

A nível estadual, conforme Monalisa, o fato da governadora Izolda Cela (PDT) ter assumido o governo do estado e na sequência não ser indicada para concorrer à reeleição foi decisivo para fortalecer o debate de gênero. “Aqui no Ceará o debate de gênero teve esse peso especialmente porque a gente tem uma mulher no governo que foi impedida de manter a sua candidatura e buscar a reeleição”. 

No Ceará, Zuleide Queiroz foi eleita suplente do legislativo estadual pelo Partido Socialismo e Liberdade (PSOL). Com uma carreira política sólida, Zuleide considera que houve um avanço na participação feminina na política. “Nós avançamos na apresentação de nomes de mulheres representativas nessas eleições de 2022, comparada aos anos anteriores, há um crescimento nas participações das mulheres na política”.

Zuleide é também professora da Universidade Regional do Cariri (URCA) e conta como sua vivência acadêmica contribui para a defesa e elaboração de pautas na política.  “Essa experiência de ser professora e trabalhar em curso de licenciatura em um programa de pós-graduação e formação de professores, me permite ter um contato muito grande com mulheres de diversas gerações”, explica. Segundo ela, que também é vice-presidente do Sindicato Nacional dos Docentes da Educação Superior, (ANDES) trabalhar na instituição proporciona um acompanhamento de como as mulheres são afetadas no âmbito acadêmico. “Uma das coisas que a gente vivencia na universidade, são essas situações de alunas que chegam de situações de violência, que abandonam o curso porque teve suas crianças e são mães solos, que abandonam porque perderam o emprego e não podem mais continuar estudando e por ter que ir para outro lugar conseguir trabalho”.

A respeito de candidaturas coletivas, Zuleide reforçou a importância do movimento para que mais mulheres ocupem cargos de liderança. “Não é à toa que foi criado o movimento dos coletivos, que está sendo uma experiência super bem sucedida. A exemplo, em 2018 o “Vamos Juntas”, formado por mulheres de Pernambuco que se candidataram e hoje elas saíram de uma candidatura estadual para uma estadual e uma federal”

No contexto estadual, ela cita o pioneirismo de candidaturas coletivas do PSOL no Ceará. “A gente teve uma das primeiras candidaturas coletivas através do PSOL, que diferentemente de outros partidos, tem conseguido dar prioridade aos recursos para essas candidaturas”, reforça. Quanto ao preconceito enfrentado, Zuleide destaca a plena capacidade administrativa das mulheres. “Assim como nós mulheres conseguimos cuidar muito bem da nossa família, conseguimos cuidar também do nosso Brasil. Nós temos experiências de gestão muito bem sucedidas, então nós queremos ocupar o nosso lugar de fala e mostrar como nós sabemos fazer, executar e planejar o desenvolvimento do país".

Mulheres na política regional

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Nas eleições de 2020, apenas 29 mulheres foram eleitas no Ceará. Duas delas, na região do Cariri cearense, nos municípios de Jati e Brejo Santo. 

Em Brejo Santo, Gislaine Landim, do Partido Democrático Trabalhista (PDT), foi eleita com 61% dos votos válidos. Gislaine, vem de uma família que possui histórico na política. Ela foi deputada entre os anos de 2003 e 2006, e foi casada com Wellington Landim, deputado estadual do Ceará por dois mandatos (1995-2003; 2007-2015) e é mãe de Guilherme Landim, que se reelegeu deputado estadual do Ceará em 2022.

Segundo Gislaine, apesar do tradicionalismo da família na política, ela busca protagonismo no seu governo. “Luto todo dia para conquistar meu espaço, para deixar a minha marca e fazer do meu jeito, é uma luta diária, para que as pessoas acreditem em você, como pessoa, como mulher, e capaz de também administrar uma cidade, de fazer a política de uma forma correta”.

Referente à participação da mulher na política, a prefeita considera que Brejo Santo é uma cidade que tem consciência da importância disso, pois anterior a ela, o município era governado por uma mulher. “Quando fui eleita, estávamos saindo de uma administração também de uma prefeita, foi a primeira mulher eleita no cargo em Brejo Santo". De acordo com ela, a representatividade feminina na política é algo importante. “Encaro com naturalidade, embora temendo que essa referência tem que dá certo para que seja um bom exemplo para as outras que possam vir, mas em Brejo Santo tem uma participação feminina satisfatória, a gente tem mulheres valentes, guerreiras, que gostam de correr atrás de seu espaço, precisamos apenas nos unir mais, para que a gente possa ter essa voz, impondo mais respeito, mais credibilidade dos nossos filhos, pais e maridos”.

No município de Jati, Monica Mariano foi eleita com 71,39% dos votos válidos. Uma das prefeitas mais jovens do Ceará, aos 32 anos, Monica conta como lida com o contexto político no qual está inserida. “Sempre faço questão de olhar ao meu redor, pois muitas vezes sou a única mulher e a mais jovem da sala, então para ser escutada, tenho que ter uma postura mais séria. Mas não digo que é uma dificuldade da política ou de Jati, é uma dificuldade do machismo estrutural que impera na nossa sociedade”

No cenário mais geral, Monica analisa o fato da maioria do público eleitor ser feminino, 52,65%,  para ela o cenário de eleitos ainda não corresponde à sociedade. “Vejo a importância de ter mulheres na política para que os espaços políticos sejam a representação do que é a nossa sociedade, para que as pessoas tenham voz de acordo com a pluralidade social que vivemos. Enquanto a maioria no cenário político for de homens, brancos e héteros, eu não acredito que esteja representando a nossa sociedade”, define. De acordo com a prefeita, a melhor forma de mudar isso é conversar diretamente com a população. “A melhor forma é incentivar e ter disposição, além disso é preciso estar aberta ao diálogo”. 

Mulheres na política estadual

No cenário estadual, mais uma vez a voz e a imagem feminina são menosprezadas. Os números de candidaturas de mulheres e homens a câmara do estado, se comparadas, apresentam uma diferença desproporcional.

Ao analisar as candidaturas, nas últimas quatro eleições, é possível notar um aumento de mulheres candidatas, mas isso se deve especialmente ao rigor no cumprimento da chamada "cota feminina". De acordo, com a Lei das Eleições (Lei nº 9.504/1997) cada partido deve preencher um percentual mínimo de 30% de candidaturas femininas entre seus candidatos. 

Gráfico: Bianca Duarte

Apesar de a "cota feminina" buscar assegurar uma participação mais igualitária entre homens e mulheres, as candidaturas masculinas se sobressaem. Essa afirmação é refletida pelos candidatos que conseguem se eleger. O gráfico apresenta uma comparação entre o número de homens e mulheres eleitas para a câmara do estado do Ceará  nas últimas quatro eleições. A eleição de 2022 trouxe um aumento para a bancada feminina, que ocupará nove das quarenta e seis vagas da câmara do estado. O número, mesmo longe da equidade de gênero, é o mais alto já registrado no Ceará para as bancadas legislativas.

Gráfico: Bianca Duarte

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Lídia Rodrigues

Lídia Rodrigues

Arquivo pessoal

Damiana Bruno

Damiana Bruno

Arquivo pessoal

Zuleide Queiroz

Zuleide Queiroz

Arquivo pessoal

Monica Mariano

Monica Mariano

Arquivo pessoal

Gislaine Landim

Gislaine Landim

Reprodução/Divulgação

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