O GÊNERO NEGLIGENCIADO PELO PODER, HISTÓRIAS DE MULHERES NA POLÍTICA BRASILEIRA
- crafaelds2110
- 14 de dez. de 2022
- 9 min de leitura
Por Bianca Duarte, Denilson Rodrigues, Rafael Silva e Victória Santos.

O espaço da política, embora tenha se modificado ao longo dos anos, ainda é dominado majoritariamente por homens, sobretudo, brancos. Essa situação se contrasta com os dados demográficos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que mostram que 52% daqueles que vivem em solo verde-amarelo são mulheres e 56% são pretos/pardos. Quando se fala do eleitorado brasileiro, 53% são mulheres, ou seja, mais de 82.246.207 eleitores.
Em 2022, no Ceará, apenas 3 mulheres foram eleitas para o cargo de Deputado Federal. Para a assembleia estadual, apenas 9 conseguiram se eleger em meio às 40 cadeiras disponíveis. Na expectativa de também conseguirem uma vaga no âmbito legislativo, houve os lançamentos de candidaturas coletivas. No Ceará, duas dessas coletivas eram do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL): a “Vozes Feministas” e a “Bora de Ruma”. Ambas coletivas foram formadas, exclusivamente, por mulheres e disputaram vagas para o legislativo federal.
Nesta entrevista, conversamos com duas co-candidatas, Damiana Bruno (Vozes Feministas) e Lídia Rodrigues (Bora de Ruma). Em duas tardes diferentes, tivemos a oportunidade de conhecer mais sobre as vivências de cada uma das entrevistadas. Na conversa, debatemos vários assuntos e, parte das falas, foram regadas à emoção. São mulheres que fazem política todos os dias, dentro e fora dos movimentos sociais aos quais integram. São mulheres que lutam por melhores condições de vida e por mais dignidade humana. Mulheres, que por várias razões, não são notadas pela política brasileira.
DAMIANA

“Eu almejo o fim dos pelourinhos, até hoje eu sinto, todos os dias, as chibatadas”. Foi Damiana quem disse, emocionada, quando perguntamos sobre suas perspectivas para o futuro. Em uma hora de entrevista, a estudante de pedagogia falou não apenas sobre política, mas também sobre dor e sobre sonhos. Falou sobre esperança.
Antes de fazer qualquer outra pergunta, eu gostaria que você me apresentasse quem é a Damiana.
Eu me chamo Damiana Bruno, tenho 35 anos, sou mulher negra, mãe solo. Sou a primeira da Família a entrar na universidade. Eu nunca pensei em me candidatar a nenhum cargo, dizia que política era nojenta. A verdade é que vivemos em uma sociedade que diz que a política não é lugar de mulher. A política é um lugar sim de mulheres! E mais, é um lugar de pretos, de transgêneros, de todas as pessoas. Adentrei à política pra dizer e afirmar que eu posso ser e que eu sou política. Já nascemos política, mas eu não tinha noção disso.
O nosso coletivo obteve 9.512 votos. Parece pouco, mas é muito significativo pra gente, sabe? E eu não me arrependo de nada! Foi um ótimo aprendizado. O que nos faltou para chegarmos lá? Nos faltou exatamente o que nos foi negado, no sentido de sociedade. Se pegarmos um homem, sobretudo branco, e uma mulher preta, as pessoas não vão depositar credibilidade na mulher preta, mas sim no homem. O nosso país ainda é muito machista, racista e excludente, infelizmente.
Você acabou de falar sobre sua experiência política. Na sua visão, qual é ou quais são os impeditivos que dificultam que mais mulheres adentrem à política ou mesmo se candidatem a cargos, como no legislativo?
Eu faço essa pergunta todos os dias. O que nos impede? Mas, no fundo, a gente sabe o que é. Entre esse impeditivos estão o machismo e o racismo, males instalados na sociedade em que vivemos. Outro fator que vejo, e isso eu falo com propriedade sendo uma mulher camponesa e do interior, é o voto de cabresto, impensável, mas existente ainda nos dias de hoje. É aquilo de, se você não votar no deputado indicado pelo prefeito, o transporte escolar ou o carro pipa não chega na minha comunidade. Particularmente, não culpo as pessoas que trocam o seu voto por favores, ou por valor x e y. As pessoas são educadas para isso, eu fui, nós somos educados para isso. Apesar de nunca ter feito isso, coisa que não me bajulo, já fui tentada pela oferta de emprego. Mas, eu não caio nessa, eu me intitulo como a preta desobediente.

Por último, e não menos importante, nós mulheres receamos entrar para política por conta do medo. Fui atacada inúmeras vezes nesta última disputa política, assim como as minhas amigas e parceiras da coletiva também foram atacadas. Com receio, passamos três meses para revelarmos às nossas mães que estávamos como candidatas.
Nitidamente, nossos corpos acabavam sendo mais vulneráveis. Para eles, nós não éramos mulheres, não éramos políticas, éramos na verdade pessoas que não poderiam estar naquele espaço. A política não deve ser um lugar de uma única cor ou sexualidade.
Qual é a sua análise sobre os perfis eleitos em 2022? E como você enxerga a apropriação de determinadas bandeiras, como a luta antirracista, para fazer apenas politicagem?
Nós chamamos isso de embranquecimento das nossas lutas e histórias. Muitos dos que foram eleitos e reeleitos não me representam. Uma mulher branca, por exemplo, que nunca sofreu violência obstétrica, não vai saber a minha dor na hora de parir. Uma mulher que nunca precisou se submeter a um aborto, por conta de uma violência sofrida ou má formação fetal, e que necessite de uma aborto, não vai discutir sobre aborto. Homens e mulheres que nunca passaram por isso, discutem sobre o meu corpo.
Mesmo assim, há deputados que, embora não vivam a minha realidade, ainda agregam algumas lutas em comum, porque discutem questões do meio ambiente, reforma agrária e a agricultura familiar. Mas, dificilmente, discutem a importância de delegacias especializadas em crimes raciais, órgãos imprescindíveis. É preciso levar em consideração os milhões de litros de sangue preto derramados em solo brasileiro.
A política não deve ser uma cabide de aporte de dinheiro. Nós estamos falando de uma gama de auxílios que tais parlamentares recebem, fora os altos salários. Auxílio paletó, auxílio isso e aquilo, enquanto milhões dividem uma salário mínimo para mil e uma utilidades, ou mesmo nem possuem salário algum. Talvez seja, e é necessário, que esses eleitos adentrem aos lixões e enxerguem com os próprios olhos a situação de famílias que dividem restos inapropriados de comida com porcos para sobreviver. Aqueles que estão lá(no parlamento), em sua maioria, falam de violência vistas, jamais de violências sofridas.
Como integrante, na sua visão, que papel os movimentos sociais exercem dentro da sociedade brasileira?
Os movimentos sociais são organizações muito importantes. Em meio a pandemia, onde as pessoas não tinham acesso a nada, por exemplo, o MST mobilizou toneladas de alimentos para doação. O acampamento Zé Maria do Tomé, de Limoeiro do Norte, doou mais de 400 cestas de alimentos, produzidos no campo, para hospitais, residências, pastoral carcerária, e ONG´S. Isso não era política eleitoreira, era política de construção de vida, e essa é a política que mais importa, política de construção de vida. Mas, isso só acontece quando sentimos que a sua fome também me atinge. Quando sua dor também me atinge.
Os movimentos sociais foram cruciais e são cruciais. Exemplifico o MST, porque é um dos mais atacados na mídia. No entanto, existem inúmeros outros movimentos fundamentais, como MAB, MPA e MMC. É essa política que nós precisamos apoiar e valorizar.
O que você almeja para o futuro?
Eu almejo mais jovens na política, sobretudo aqueles minorizados. Almejo um espaço na política formado por pessoas que sabem o que é está na base, por pessoas que saibam o que é produzir o milho e o feijão no campo.
Desejo que tenhamos equidade social. Eu almejo um dia em que as dores não nos alcance mais. Foi baseada nessas dores que eu me refiz inúmeras vezes. Foi quando me derrubaram que me ergui mais forte. Nós não nascemos fortes, as dores nos ensinaram a ser fortes. Muitas vezes algumas pessoas dizem: “não chore!”. Para mim, não é feio chorar. Feio é não sentir a dor do outro, da outra. Feio é passar pelas ruas, e ainda chorar porque existem pessoas sem moradia e passando fome.
Eu quero que a bala da polícia não alcance os nossos corpos. Que o narcotráfico não opte por nossos jovens, nossas crianças. Eu almejo que o meu filho e a minha filha não chorem a minha morte por violência.
Eu quero o fim dos pelourinhos, desses pelourinhos invisíveis que ainda existem. Eu ainda sinto, todos os dias, as chicotadas. Desejo que esses chicotes não nos alcance mais. A Conceição Evaristo diz que ”o preconceito no brasil não é uma questão individual, é uma questão de nação”. A nação precisa ser reconstruída! Eu quero uma política de inclusão, construção e equidade. Eu desejo uma história que nos caiba, inclua, ouça e não nos mate, nem nos machuque.
LÍDIA

Assim como Damiana, Lídia é também uma mulher política. Em sua trajetória, que se iniciou aos 16 anos de idade, ela já atuou dentro de várias organizações da sociedade civil. Como mulher negra, Lídia ressalta que problemas estruturais como o machismo e o racismo são uns dos impeditivos que dificultam a entrada e o engajamento de mais mulheres no ambiente político, sobretudo no eleitoral. Moradora de Fortaleza, Lídia, em uma tarde de prosa, nos contou um pouco mais da sua história de de vida.
Quem é a Lídia Rodrigues?
Eu sou Ana Lídia Rodrigues, comecei a militar ainda na adolescência, aos 16 anos. Sou educadora social, artista e mulher autista. Me engajei inicialmente na luta contra a violência praticada a crianças e adolescentes, e até hoje milito por esta causa. De lá para cá, fiz parte de várias organizações sociais locais e nacionais. Em 2019, saí da organização da sociedade civil e entrei numa trajetória político-partidária, à época motivada pelo cenário em que estávamos vivendo no país, e também por uma compreensão de que ninguém irá salvar a gente, nós é quem devemos ir construindo as alternativas políticas. Recentemente, em 2022, me candidatei pelo coletivo Bora de Ruma (PSOL-Ceará) para uma vaga na Câmara Federal, juntamente com mais duas mulheres: a Cristina Costa e a Lany Maria.
Durante a sua vivência política, você sempre defendeu as bandeiras da comunidade LBTQIA+, da luta feminina, da luta antirracista e tantas outras. No entanto, existem candidatos que se apropriam de tais bandeiras apenas para aproveitamento de votos. Qual a sua opinião sobre isso?
Evidentemente existem parlamentares que embora não sejam negros e negras, mulheres, LGBT+, pessoas com deficiência, ainda são comprometidos e fazem um trabalho articulado com essas bandeiras. Mas, existem aqueles que não são e que se aproveitam dessas bandeiras, é o que a gente entende como estelionato político. De uma forma ou de outra, existe um risco, ou melhor, aqui no Brasil isso já é um fato. As pessoas que sofrem as diversas opressões estão sub-representadas na política. E essa sub-representação provoca uma série de coisas. Ainda que existam pessoas comprometidas com algumas causas, elas não têm como legislar e propor pautas sem ter a experiência do vivido. Precisamos reverter essa situação. E, uma das medidas que devem ser adotadas com urgência é, por exemplo, a banca de heteroidentificação. As cotas precisam e devem ser respeitadas.
Como você analisa o resultado das eleições deste ano, tanto no âmbito estadual quanto federal?
A maioria são rostos repetidos. Conseguimos colocar a Zuleide Queiroz na suplência. Mas, em sua maioria, foram eleitas trajetórias repetidas. Conseguimos tirar o Bolsonaro da presidência, ainda bem. No entanto, no parlamento, você não tem uma transformação. Como exemplo, temos o André Fernandes como deputado mais bem votado do Ceará. A vitória do Lula deixa claro que o caminho ainda é muito longo, e que a gente tem que investir muito em educação popular para que as pessoas saibam votar e para que também tenham um engajamento com a política, para além dos anos de eleição.
Na sua visão, o que impede que mais mulheres adentrem à política?
Tem uma coisa que é estrutural. Nós mulheres não fomos criadas para esse espaço da política. Nós somos educadas de modo a ocupar espaços privados, e isso vai desde as nossas brincadeiras infantis. A nossa fala não é escutada, as mulheres são ensinadas desde criança a se manter silenciosas e obedientes, e que o seu lugar é o lugar da casa. Além disso, existe nas mulheres uma experiência de dor. O processo de se libertar das amarras do patriarcado e do machismo é doloroso. Ao mesmo tempo, a gente vive uma constante marginalização dos movimentos de mulheres por lutas feministas.
As mulheres também possuem um menor acesso ao sistema educacional, e quando acessam, por exemplo, na universidade, a gente não tem nenhuma expectativa concreta de igualdade com os homens.
Quando as mulheres adentram o espaço da política, ainda tem todo um imaginário social. Um exemplo é a morte da Marielle e o impeachment da Dilma. Existe uma operação compulsória para a retirada das mulheres dos espaços de poder, seja por ataques políticos, seja por extermínio. Sem falar que as mulheres, quando estão na política, precisam lidar com uma jornada triplicada de trabalho. Os homens são ensinados e criados para serem cuidados, as mulheres para cuidar. Acaba sendo mais pesado pra gente de se sustentar e permanecer nesse espaço.
Qual é a importância dos movimentos sociais para a sociedade? E qual a importância da atuação de mais mulheres nessas frentes?
Os movimentos sociais garantem que a política permaneça politizada. A partir da realidade, eles vão colocando as demandas que precisam virar políticas públicas, legislação. Eles tensionam o Estado, que é apartado do povo, a partir da experiência do povo.

É interessante que, se a gente for observar, são as mulheres as protagonistas de muitas lutas. As mulheres tocam as lutas em muitos campos além do movimento de mulheres. Elas estão à frente do no movimento ambientalista, no da juventude e infância, nos movimentos por moradia, na luta contra o extermínio da juventude preta, pobre e periférica. São as mulheres que lideram essas lutas. Elas lideram porque, aqui, novamente, existe um aspecto do machismo estrutural. São as mulheres que têm que garantir as condições de cuidado e de vida. Somos os sujeitos responsáveis pela alimentação, pelo cuidado, que mais sofrem com a morte dos homens e dos meninos. São as mulheres que mais morrem, mais sofrem por falta de moradia, as que mais lutam em defesa dos seus territórios tradicionais e ancestrais. Somos nós que assumimos essas frentes.
Quais são as suas perspectivas para o futuro?
Eu tenho muita esperança que a gente tenha políticas de vida. A extinção da fome atinge diretamente as mulheres, os mais pobres. A diminuição da violência que afeta diretamente as mulheres. Eu tenho uma expectativa de uma transformação política, para, pelo menos, diminuir essas coisas que voltaram a nos assombrar. Uma coisa que é imprescindível é termos os nossos direitos sexuais garantidos. Só a partir do sujeito falando de si mesmo, é que a gente consegue transformar as perspectivas em ações concretas.


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