ROMEIRÃO: O ESTÁDIO QUE NÃO VIROU ARENA
- amandagabriele999
- 1 de jul. de 2022
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Vídeo: Caio Gabriel
Por: Pedro Uchôa, Amanda Gabriele Nascimento, Maria Eliziane Amorim, Caio Gabriel Lacerda, Letícia da Costa
O Estádio Mauro Sampaio, atual Arena Romeirão, localizado em Juazeiro do Norte, passou por uma grande modernização, tornando-se a arena mais moderna do interior do Nordeste. A reforma teve investimento aproximado de R$ 90 milhões do Governo do Estado do Ceará, por meio da Secretária de Obras Públicas (SOP). Atualmente, o equipamento possui uma área de 47 mil metros quadrados, incluindo campo gramado, área para o museu do futebol, arquibancadas para 17 mil lugares, duas áreas de banco de reservas, cabines de imprensa e camarotes, seis vestiários, estacionamento privativo, centro comercial, praça de alimentação e ambulatório.
A obra é um marco para a região do Cariri. Além de oferecer futebol, a intenção também era gerar renda e oportunidade de emprego com shows, eventos culturais e religiosos. Uma opção a mais de lazer para os caririenses, estimulando a economia local e o turismo. Contudo, a inauguração ocorreu antes da finalização das obras. Na ocasião, apenas 10 mil ingressos foram disponibilizados para a abertura, pois não houve tempo hábil para a instalação do restante das cadeiras.
A reforma do estádio impactou quatro instituições localizadas ao seu redor. A escola João

Alencar de Figueiredo, o Corpo de Bombeiros, a sede do Demutran e da Guarda Municipal. Os prédios foram demolidos e realocados pela prefeitura. O Demutran e a Guarda Municipal funcionam agora na antiga sede do Detran, na avenida Padre Cícero. Já a escola João de Alencar de Figueiredo foi para o antigo prédio da Universidade Regional do Cariri (URCA), também na avenida Padre Cícero. Já o Corpo de Bombeiro vai receber um novo quartel, em local ainda não definido.
Inicialmente o Governo do estado pretendia gastar R$ 69,5 milhões no projeto, porém, ao longo da reforma, houve modificações na proposta inicial. As arquibancadas que ficavam atrás do gol, Reforma do Romeirão, Fotos: Cicero Lacerda de Maria
por exemplo, faram remanejadas apenas para as laterais e tiveram sua capacidade aumentadas. Devidos às inúmeras mudanças, o valor atual é de quase R$ 90 milhões, segundo o portal da transparência do Governo do Ceará. Confira os valores:

Apesar das inegáveis melhorias feitas na estrutura, e que ainda estão em andamento, após

a entrega do espaço os times e os ambulantes tiveram alguns prejuízos. No caso dos ambulantes, muitos não retornaram, pois o uso dos boxes precisa ser solicitada junto ao governo estadual, o que leva tempo, além do aumento no valor do aluguel. No caso dos times de futebol, o aluguel também teve aumento, além das taxas, impostos, e despesas operacionais. A maioria dos times está optando por jogar no estádio Inaudão, em Barbalha, devido os elevados custos de atuar no Romeirão.
Além dos ambulantes que trabalhavam nos boxes, era comum as pessoas comprarem ingressos para os jogos e levarem produtos para vender, como pipoca e doces. Após a reabertura, essa Reforma do Romeirão, Fotos: Cicero Lacerda de Maria
prática foi proibida sem aviso prévio. Ainda é comum os comerciantes serem barrados na entrada, gerando prejuízos.
Sobre os custos de aluguel do campo, Marcia de Paula Sousa, auxiliar de gestão da SEJUV (Secretária de Esporte e Juventude) explica que varia de acordo com a quantidade de pessoas nas arquibancadas. O valo de R$ 5.000,00 é para lotação de até 2.570 pessoas. O que realmente acaba encarecendo o custo final, pois devido a atrasos em licitações, alguns equipamentos ainda não estão disponíveis e precisam ser custeados pelos clubes.

Foto: Pedro Uchôa
Atualmente, a Arena não possui gerador de energia, catraca, sistema de som ou câmeras de segurança. Nos dias de jogo, o clube mandante precisa contratar serviços terceirizados de sistema de som e gerador. Além disso, eles também gastam com equipe médica e ambulância, taxa de 5% da renda para a federação local, segurança, arbitragem, limpeza e outras despesas.
Devido a falta desses equipamentos, os jogos estão acontecendo por meio de Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) definido pelo Ministério Público. Esse termo indica a estrutura mínima que o estádio deve ter para receber público. Desta maneira, das 17.230 cadeiras disponíveis, apenas 7.000 podem ser disponibilizadas para uso por jogo. Além disso, o campo ainda não possui túnel sanfonado para proteção dos jogadores ao entrar e sair de campo. Provisoriamente, estão sendo usados gradis.

Sobre os demais usos do Romeirão, Márcia afirma que o espaço será utilizado não só para jogos. Está prevista a liberação do estacionamento para eventos futuros. “A Arena é um espaço que é multiuso, né? A gente vai se utilizar dela não só para jogos. A prioridade são jogos, mas o nosso estacionamento vai ficar aberto para eventos, como é feito no Castelão [em Fortaleza].
Da mesma forma e no mesmo molde que o Estado gere". O estacionamento ainda não foi finalizado. Algumas grades quebraram devido a fragilidade do material e ainda aguarda substituição, enquanto outras ainda serão instaladas. Quanto às reclamações sobre o valor dos ingressos, a auxiliar de gestão disse que é algo decidido pelo clube.
“Os [valores dos] ingressos não é o Estado [quem decide], é o clube. Se o clube disser que vai ser R$ 20, ele enche isso aqui. Só que a despesa dele também aumenta. Porque quando eu abro todos os lados, eu vou precisar de segurança.”

Foto: Pedro Uchôa
Ela ainda afirma que, mesmo operando com capacidade reduzida, em todos os jogos realizados até agora ocorreu algum tipo de avaria nos equipamentos. "Levam chuveiro, quebram tampa de mictório e ninguém sabe disso. A manutenção da Arena hoje é altíssima", lamenta Márcia. Desde a reabertura do estádio, em 27 de março, a Arena já recebeu oito jogos, fora o amistoso de inauguração.
Os maiores públicos ocorrem durante os jogos do Icasa, em torno de 3 mil pessoas. Os demais times que foram mandantes de campo neste período - Guarani FC e Cariri FC - tiveram médias de público entre 600 e 1.300 pessoas. Dentre os oito jogos realizados, em apenas três o time conseguiu lucro, nos demais, os prejuízos chegaram a mais de R$ 20.000 reais. Todas as partidas com lucro foram do Icasa.

O Museu do Futebol, que ainda está em andamento, será voltado para a história dos clubes juazeirenses de futebol amador. Para ter direito de uso do equipamento os times devem ser ligados à Associação de Apoio ao Esporte Amador de Juazeiro do Norte - Asseajuno, à Central de Apoio ao Esporte Amador de Juazeiro do Norte - Cadescor e à Liga de Esporte Juazeirense - Liej. Este espaço é uma parceria entre a prefeitura de Juazeiro do Norte e Governo do Estado do Ceará, mas até o momento não foi divulgado prazo de entrega.
A respeito dos prós e contras do uso da Arena Romeirão, entramos em contato com o técnico do Guarani de Juazeiro FC, Lamar Martins e com o coordenador do Icasa FC, Cicero Lacerda. Considerando o tamanho de ambas as torcidas e o aporte financeiro dos times para cumprir com as despesas de jogo, as respostas foram divergentes, exceto no fato de que times pequenos não tem vantagens em usar a arena. Como visto no gráfico de arrecadação, exceto para o Icasa, quase sempre o valor arrecadado não cobre sequer o aluguel de campo.
Cicero Lacerda afirma que Icasa não pretende deixar de usar a arena. "Devido o conforto tanto para os jogadores" ele afirma que as vantagens em usar o espaço compensam os valores gastos. Mesmo com os dois prejuízos nos últimos dois jogos do time. Apesar disso, ele reconhece que os times de menor porte da região não possuem condição para usar a arena com os valores atuai. Para Cicero, o governo estadual precisa criar políticas que estimulem a participação dos demais clubes.
Para o Guarani, cujas partidas realizadas até o momento não chegaram à 1.000 pessoas, a visão é completamente diferente. Lamar afirma que o Guarani não pretende mandar jogos na Arena Romeirão e provavelmente realizara as próximas partidas no estádio municipal Mauro Sampaio, em Crato. Lamar ainda afirma que "o Estado poderia ter construído essa arena em outro local e mantido o estádio para aqueles que não conseguem usar a arena, como os times pequenos e os amadores."
MISSA DA MISERICÓRDIA
Até a sua reforma, nas terças-feiras, o Romeirão recebia a Missa da Misericórdia e Libertação, conhecida popularmente como Missa da Cura, da comunidade católica Filhos Amados do Céu (FAC), presidida pelo Padre Sebastião Monteiro da Silva. Desde o início da reforma, o evento semanal voltou a ser realizado no Ginásio Poliesportivo de Juazeiro do Norte.
Segundo Hosana Viana, que sempre ia à missa no Romeirão, o evento era sempre lotado e vinham caravanas de toda a região do Cariri, principalmente de Crato, Barbalha e até de Pernambuco. Além dos ambulantes que já trabalhavam no espaço, durantes as celebrações, a FAC tinha diversas barracas para vendas de alimentos, lembrancinhas e artigos religiosos para auxiliar nas ações sociais da comunidade. A comunidade realiza esses projetos em Crato e Juazeiro, e no Sítio Zabelê, zona rural da cidade de Nova Olinda, foi aberta uma unidade para tratar de pessoas com dependência química.
Missa da Misericórdia - 10 de mar. de 2016 Fonte: Comunidade Católica FAC
"O poliesportivo é bom para jogos estudantis, mas para suportar um público tão grande como o que ia para o Romeirão, fica muito difícil, é um 'aperto' de gente”, afirma Hosana. Além da capacidade de público muito reduzida, não é raro que algumas pessoas passem mal ou desmaiem em meio às orações e acabem precisando de algum suporte.
Danubia Coelho conta que antes eles tinham à disposição ambulância, corpo de bombeiros e guarda municipal. Agora, pelo tamanho do espaço, só existem alguns guardas municipais, o que prejudica muito o socorro. Segundo ela, não foi dada uma explicação do porquê a missa não retornou ao Romeirão. Porém, segundo ela, teria sido dito a alguns fiéis que a prefeitura havia informado que agora ele seria apenas para eventos esportivos. Atualmente, o espaço é de responsabilidade do Governo Estadual do Ceará.
Missa da Cura no Poliesportivo, Fonte: Danubia Coelho
O vídeo acima, cedido por Danubia, foi filmado durante uma das missas no Ginásio Poliesportivo. Como é possível ver nas imagens, o espaço é pequeno para o público que o evento recebe. Um agravante a mais durante a pandemia da Covid-19. Quanto ao impacto gerado pela mudança de local, o padre disse que o Ginásio Poliesportivo é bom, porém, há dificuldades, pois o estacionamento é pequeno e a acústica não é boa, além do calor resultante da pouca ventilação.
"É claro que ter saído do estádio provocou um impacto na comunidade, porque trabalhamos com evento com muitas pessoas e no Juazeiro não temos outro lugar tão extenso senão o Romeirão. E também porque é central para quase todos os bairros de Juazeiro e para quem vem de outras cidades."
A equipe da comunidade estima um público entre 8 mil a 12 mil pessoas no antigo estádio Romeirão. O espaço atual comporta no máximo de 5 mil pessoas, o que, segundo o padre, dificulta a circulação, a acústica e o socorro em casos de emergência. O ginásio tem capacidade para 463 pessoas sentadas. O atendimento médico é realizado por enfermeiros e técnicos da própria FAC e a prefeitura disponibiliza uma ambulância.
Sobre a missa, a auxiliar de gestão da da Arena Romeirão informou que o vigário chegou a conversar com o secretário de Esportes e Juventude, Rogério Nogueira, sendo informado que poderia fazer uso do estacionamento por meio de licitação. Pela demora de tramitação do processo e com a obra ainda não finalizada, a missa permanece no Ginásio Poliesportivo.
O motivo da parte interna da arena não ser liberada para nenhum evento além dos jogos, é segundo Márcia, o fato de o gramado precisar de no mínimo 48 horas de descanso entre um jogo e outro. Além disso, o custo de manutenção da grama natural é muito alto. Por essa razão, o Estado decidiu usá-lo exclusivamente para os jogos de futebol. A respeito das afirmações, entramos em contato com representantes dos times do Icasa e Guarani, mas não obtivemos respostas. Sobre as licitações ainda em andamento da Arena, até o fechamento dessa reportagem não houve retorno.


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