Endividamento e a incerteza do amanhã
- Naju Sampaio
- 3 de jul. de 2022
- 5 min de leitura
Em maio de 2022 o número de famílias endividadas no Brasil chegou a 77,4%.
Por: Clarice França, Maria de Fátima, Naju Sampaio e Yan Tavares.

“Eu fiz empréstimo sim, mas foi para pagar as dívidas básicas, como o mercadinho do lado, não posso nem fazer uma boa feira, mesmo no local mais barato”, diz a dona de casa, Cícera Maria Alves, de 49 anos, residente de Caririaçu. A chefe de família, é agricultora, costureira e, para que não falte dinheiro, aceita as mais diversas possibilidades de trabalho, uma vez que sustenta dois de seus quatros filhos e duas netas.
A agricultora narra que em sua vida não teve dívidas grandes, mas muitas vezes o seu principal endividamento era com o que não pode faltar, a comida. Segundo ela, o endividamento causa muito estresse e por conta do trabalho informal, não há folga, nem férias, ela sempre está trabalhando e procurando outras formas de conseguir renda. Trabalhar na roça, como costureira e diarista aos finais de semana causa dores terríveis, o que dificulta ainda mais o dia a dia.
“Não me chame de guerreira, tenho raiva quando alguém diz isso, só porque eu enfrento uma roça, faço uma cerca ou trabalho em qualquer coisa? Não é coragem, é medo da família em casa passar precisão”. - Cícera Maria Alves
Cícera recebe o Auxílio Brasil, oferecido pelo Governo Federal. De acordo com ela esse é o alívio, já que é o único dinheiro fixo do mês para pagar as contas de aluguel, alimentação, energia entre outras. Entretanto, o auxílio também gera muitos problemas, pois não é sempre que pode ser sacado. "Às vezes chego na fila do banco com o coração do tamanho de um alfinete, tremendo de frio e fome esperando chegar a minha vez e escuto que o caixa está bloqueado. É como se eu desmaiasse, com a conta de luz, água e internet na bolsa pra pagar com esse dinheiro, e o gás como vou comprar? Nem sempre posso confiar.”
Ela realizou um empréstimo de R$ 2 mil, com a idealização de que com esse valor conseguiria quitar suas dívidas e fazer uma feira no mercado, mas quando retornou para casa no mesmo dia, não restou dinheiro para além das contas que já estavam acumuladas. A agricultora relata que apesar de ficar contente com o dinheiro, ele já tem um dono e que ela precisará devolver.
Cícera demonstra que apesar dos últimos acontecimentos vividos, os seus sentimentos variam de gratidão, para o sentimento de não se sentir incluída na sociedade. O seu medo de não conseguir trazer comida para casa se evidencia no decorrer da reportagem, situações essas que fazem com que Cícera se sinta uma pessoa apenas quando se arruma, mas apesar disso, menciona não baixar a cabeça, e que pelo contrário, sai de cabeça erguida.
O endividamento da população brasileira
O economista e professor de ciências contábeis da Universidade Federal do Cariri (UFCA), Helson Gomes de Souza, explicou sobre o processo de endividamento da população brasileira. Segundo ele, a conjuntura econômica atual tem um grande peso sobre a condição de endividamento das pessoas, uma vez que o momento que sucede a aplicação de três choques na economia brasileira, o primeiro, nas cadeias de produção; o segundo choque, ocorreu sobre a demanda, com a concessão de benefícios financeiros que impulsionaram a compra de bens e serviços no Brasil; e por último, o terceiro choque corresponde à inflação da base monetária. Esses três componentes vieram a gerar um fenômeno bastante conhecido pelo brasileiro, o aumento de preços.
Helson explica que o aumento dos preços certamente é um dos principais componentes, senão o principal, que atua na condição de endividamento das famílias. Ao passo que o poder de compra do salário é menor e as necessidades dos brasileiros não são reduzidas, as principais soluções encontradas para sanar a demanda por bens necessários estão associadas ao endividamento, como por exemplo, o parcelamento das compras e a tomada de empréstimos junto às instituições financeiras. Neste cenário um novo componente atua sobre a condição de endividamento do brasileiro, a taxa de juros.
Quando o Governo aumenta a taxa de juros, faz com que o consumidor tenha que pagar a mais pela taxa de remuneração do capital envolvido na negociação, deixando mais caro o financiamento dos bens e serviços, assim como nos empréstimos. Como a maiorias dos consumidores mais pobres, que precisão financiar alimentos e bens e serviços de saúde, a renda mensal não consegue acompanhar o aumento dos juros e da taxa de crescimento dos preços, ocasionando um aumento exponencial de pessoas endividadas. Segundo dados coletados na Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor, disponibilizada mensalmente pela Federação Nacional do Comércio (FECOMÉRCIO), no início de 2021, 66,5% das famílias brasileiras estavam endividadas, enquanto em maio de 2022 o número chegou a 77,4%, um crescimento de aproximadamente 16,4%.

Outras formas para que as famílias carentes que estejam endividas fujam de novas dívidas cada vez maiores, estariam a partir de medidas mais eficientes no controle fiscal e uma maior rigidez na política monetária brasileira. Helson explica que se ocorresse uma melhora na responsabilidade fiscal do poder público, o governo central diminuiria a necessidade de financiamento, pressionando as taxas de juros para baixo, fazendo que os valores dos empréstimos fossem reduzidos. Com uma maior rigorosidade no controle da quantidade de dinheiro em circulação, aumentos artificiais da demanda sem oferta seriam diminuídos, fazendo com que o consumidor brasileiro tivesse um melhor poder de compra com a estabilidade dos preços.
Caminhos para o não endividamento
De acordo com a Educadora Financeira Cícera Martins, a educação financeira é algo importante, pois assim as pessoas terão uma vida mais organizada, e automaticamente poderão alcançar suas metas, principalmente, sem precisar se endividar para isso. A especialista explica que a educação financeira é uma mudança de hábito, e que começa a ser aplicada no dia a dia, por exemplo, economizando em coisas que não são necessárias para não ter dinheiro parado em objetos guardados, podendo investir esse dinheiro futuramente, ou também em comprar à vista e pedir descontos para assim comprar mais barato.
O seu público alvo são 80% de clientes mulheres, 20% possui CNPJ, e 80% são empreendedoras. A educadora atende pessoas que querem se organizar financeiramente, ou que querem investir, ou apenas sair das dívidas. O auxílio de pessoas endividadas se dá primeiramente por um levantamento que é feito de início com o valor da dívida em questão, logo depois essas dívidas são classificadas por um critério usado para organizar as dívidas por prioridade de pagamento, após esse levantamento, novos planos e metas são traçados, mas agora todo o processo será para realizar os pagamentos conforme o estipulado.
Segundo Cícera Martins, é preciso tomar nota de tudo que sai e entra, mas que não basta apenas anotar, e sim, também analisar os resultados e fazer o planejamento de despesas, como as despesas fixas, ou não fixas. Ela relata que é importante que as pessoas busquem o conhecimento sobre o assunto, principalmente as pessoas que não possuem nenhuma noção sobre educação financeira, e que buscam entender o ciclo do dinheiro, pois caso não entendam, viverão para trabalhar e pagar boleto, se tornando escravas do dinheiro.



Comentários